Um levantamento publicado em agosto de 2026 pelo Business Insider Markets traz um dado que merece atenção direta: 48% dos profissionais ouvidos pela HERE Enterprise afirmam que a IA tornou seus trabalhos mais difíceis ou gerou aproximadamente tanto trabalho quanto economizou. A pesquisa ouviu 1.000 profissionais norte-americanos de tempo integral nos setores financeiro, de saúde e público — exatamente os segmentos com maior pressão regulatória e maior expectativa de ganho de produtividade com IA.
O que os números descrevem
Três em cada dez usuários de IA passam pelo menos metade do dia de trabalho reinserindo informações entre ferramentas de IA e outros sistemas. Quarenta por cento lidam com um volume maior de tarefas porque estão supervisionando saídas ou decisões da IA. Sessenta e quatro por cento dizem que a IA afetou negativamente a forma como acessam aplicações e conteúdo no trabalho. Entre esses, 32% passaram a alternar entre mais aplicativos, 28% gastam mais tempo buscando informações e 26% mantêm mais abas abertas simultaneamente. O relatório chama esse fenômeno de Toggle Tax: o custo cognitivo de alternar constantemente entre sistemas — agora agravado pela reinserção manual de dados gerados por IA.
Nossa leitura: o problema não é a IA, é a arquitetura de adoção
Esses números não indicam que a IA falhou. Indicam que a maioria das organizações adicionou ferramentas de IA sobre processos e sistemas que não foram redesenhados para recebê-las. O resultado é previsível: mais camadas, mais fricção, mais alternância de contexto. Quando 66% dos profissionais que relataram piora na experiência de trabalho também reportam maior fadiga mental e esgotamento emocional, o sinal é claro — a sobrecarga não é percepção subjetiva, é estrutural. Há ainda um dado que merece atenção específica para quem lidera: 72% dos respondentes admitem contornar as restrições de IA da organização. Trinta e seis por cento usam ferramentas de IA em dispositivos pessoais para manter o uso fora dos sistemas corporativos. Apenas 27% removem ou anonimizam dados sensíveis antes de inserir informações em uma ferramenta de IA. Isso não é rebeldia — é adaptação. Quando a ferramenta aprovada cria mais atrito do que a ferramenta proibida, as pessoas escolhem a que funciona. A consequência para governança e segurança de dados é séria e imediata.
O que isso muda para quem toma decisões
Sessenta por cento dos respondentes dizem que as expectativas de produtividade aumentaram desde que a IA foi introduzida — mesmo sem redução real de carga de trabalho. Esse é o cenário mais arriscado: pressão crescente, ferramentas que geram atrito e equipes que encontram atalhos fora do perímetro controlado. O padrão que vemos, tanto nos dados desta pesquisa quanto no que acompanhamos em contextos educacionais e corporativos, é que a adoção de IA sem redesenho de fluxo de trabalho tende a redistribuir esforço, não a eliminá-lo. A pergunta relevante para gestores não é qual ferramenta de IA vamos adotar, mas quais etapas do nosso processo atual a IA pode substituir integralmente — e quais ela apenas complica. Essa distinção, feita antes da implementação, é o que separa ganho real de sobrecarga disfarçada de modernização.